Viajar de motorhome pelo Sul do Brasil durante o inverno é uma experiência que combina liberdade, paisagens impressionantes e aquela sensação deliciosa de acordar cada dia em um cenário diferente. Em uma única viagem, é possível conhecer o charme de Gramado e Canela, percorrer os caminhos do vinho em Bento Gonçalves e depois seguir rumo às montanhas de Santa Catarina, onde o frio, a neblina e os campos de altitude transformam a paisagem.
O segredo para aproveitar bem um roteiro tão completo está em não tentar conhecer tudo de uma vez. Quinze dias permitem montar uma viagem equilibrada, com tempo para dirigir, explorar as cidades e também deixar espaço para mudanças provocadas pelo clima.
Como organizar a viagem
A melhor estratégia é fazer o percurso em sentido único, evitando deslocamentos desnecessários. A sequência sugerida é:
Gramado → Canela → Bento Gonçalves → São Joaquim → Urubici → Bom Jardim da Serra.
Antes de sair, abasteça o motorhome, confira pneus, freios, nível dos fluidos, sistema elétrico, gás e aquecimento. No inverno, também vale revisar o isolamento das janelas e verificar se há possibilidade de temperaturas muito baixas durante a viagem.
Dias 1 e 2 — Gramado
Dia 1: chegada e adaptação
Comece a viagem chegando a Gramado com calma. Depois de estacionar em local autorizado para motorhomes, aproveite o primeiro dia para caminhar pelo centro.
Rua Coberta, Igreja Matriz São Pedro, Praça Major Nicoletti e região central são boas opções para conhecer a cidade sem precisar movimentar o veículo.
À noite, prepare uma refeição no próprio motorhome. Além de economizar, cozinhar durante a viagem faz parte da experiência.
Dia 2: Gramado com mais tranquilidade
Reserve o segundo dia para atrações que exigem mais tempo. O Lago Negro, os bairros mais charmosos e os mirantes da região podem entrar no roteiro.
No inverno, comece os passeios cedo. Dias frios podem ter neblina e mudanças rápidas de temperatura, e o tempo disponível com luz natural é precioso.
Dia 3 — Canela
A distância curta entre Gramado e Canela permite fazer esse deslocamento sem pressa.
O Parque do Caracol é uma das principais referências naturais da região. Reserve algumas horas para contemplar a paisagem e caminhar pelas áreas permitidas.
Depois, conheça o centro de Canela e aproveite para abastecer o motorhome com alimentos antes de seguir viagem.
Dica: não é necessário levar o motorhome para todos os passeios. Quando houver estacionamento adequado, deixar o veículo parado e explorar a cidade a pé pode ser muito mais confortável.
Dias 4 e 5 — Bento Gonçalves
Dia 4: Gramado/Canela → Bento Gonçalves
É hora de mudar completamente de cenário. A paisagem passa das montanhas turísticas da Serra Gaúcha para os vales cobertos por parreirais.
Ao chegar a Bento Gonçalves, organize o pernoite em local autorizado e faça apenas um passeio leve.
O Vale dos Vinhedos merece ser percorrido sem pressa, principalmente porque o objetivo não é simplesmente chegar aos atrativos, mas aproveitar a estrada.
Dia 5: Vale dos Vinhedos
Dedique o dia às vinícolas, gastronomia e paisagens rurais.
Como você está viajando de motorhome, atenção especial deve ser dada à questão da degustação de bebidas alcoólicas: o motorista deve permanecer totalmente sóbrio para dirigir. Uma alternativa inteligente é escolher atrações próximas, usar transporte contratado ou simplesmente aproveitar o dia sem conduzir.
Dias 6 e 7 — Bento Gonçalves → São Joaquim
Dia 6: deslocamento para Santa Catarina
Esse será um dos dias mais importantes para controlar o ritmo da viagem.
Saia cedo de Bento Gonçalves, faça paradas programadas e evite dirigir longos períodos depois do anoitecer. No inverno, neblina e temperaturas baixas podem reduzir bastante a visibilidade.
Ao chegar a São Joaquim, instale-se e aproveite uma noite tranquila.
Dia 7: São Joaquim
São Joaquim merece um dia inteiro.
Caminhe pelo centro, conheça a cultura local e explore propriedades rurais e vinícolas da região. O município é conhecido pelo frio intenso e pelas paisagens de altitude, que ficam especialmente interessantes no inverno.
Se houver previsão de temperaturas muito baixas, reserve tempo para aproveitar a cidade sem transformar o dia em uma maratona de atrações.
Dias 8 a 11 — Urubici
Dia 8: São Joaquim → Urubici
O deslocamento entre as duas cidades já funciona como um passeio. Faça paradas para fotografar os campos e serras sempre em locais seguros e autorizados.
Chegando a Urubici, use o restante do dia para descansar e preparar o motorhome para os próximos passeios.
Dia 9: Morro da Igreja e Pedra Furada
Esse é um dos pontos altos da viagem.
O acesso ao setor Morro da Igreja/Pedra Furada, no Parque Nacional de São Joaquim, exige agendamento prévio. Atualmente, o ICMBio informa que as vagas costumam ser liberadas aproximadamente uma semana antes da visita, e o ingresso agendado precisa ser retirado fisicamente na sede do parque, em Urubici.
Por isso, não deixe essa etapa para a última hora.
O frio pode ser intenso na parte alta. Leve roupas em camadas, gorro, luvas, calçado adequado e proteção contra vento.
Dia 10: natureza e estradas de Urubici
Reserve um dia mais flexível para conhecer outros pontos naturais da região.
Uma das vantagens do motorhome é poder adaptar o roteiro ao clima. Se o céu estiver limpo, priorize mirantes e paisagens abertas. Se houver chuva ou neblina intensa, aproveite para descansar, cozinhar e conhecer melhor o centro da cidade.
Dia 11: dia reserva
Ter um dia livre em uma viagem de inverno é uma estratégia, não desperdício.
Se algum passeio foi prejudicado por chuva, vento ou neblina, use esse dia para refazê-lo. Caso tudo tenha ocorrido conforme planejado, aproveite para uma experiência gastronômica ou simplesmente desacelerar.
Dias 12 e 13 — Urubici → Bom Jardim da Serra
Dia 12: deslocamento panorâmico
Saia de Urubici com tempo.
Dependendo das condições da estrada, o deslocamento pode exigir atenção redobrada. Para um veículo grande, curvas, declives, pista molhada e neblina exigem velocidade compatível e distância segura.
Chegando a Bom Jardim da Serra, procure um local autorizado para pernoite e aproveite o fim do dia.
Dia 13: Serra do Rio do Rastro
Reserve um dia inteiro para a região.
A Serra do Rio do Rastro é justamente o tipo de estrada que merece ser percorrida sem pressa. As curvas, paredões e mirantes tornam o trajeto uma das experiências mais marcantes da Serra Catarinense.
Antes de sair com o motorhome, consulte as condições atuais da rodovia e do clima. Em períodos de frio intenso, chuva, neblina ou possibilidade de gelo, as condições podem mudar rapidamente.
Dias 14 e 15 — Bom Jardim da Serra e encerramento da viagem
Dia 14: paisagens e descanso
Use esse dia para explorar os arredores de Bom Jardim da Serra e contemplar os campos de altitude.
Depois de quase duas semanas na estrada, esse intervalo é importante. Aproveite para organizar o motorhome, abastecer água, conferir pneus, limpar o interior e revisar os níveis de combustível.
Dia 15: último amanhecer na serra
Não tenha pressa para ir embora.
Prepare um café dentro do motorhome, abra a janela e aproveite o último amanhecer cercado pelas montanhas.
Se o retorno para casa for longo, comece a dirigir cedo e programe uma parada intermediária. A melhor lembrança de uma viagem de motorhome é terminar o percurso com tranquilidade, não com cansaço extremo.
Passo a passo para uma viagem mais econômica
Planeje os pernoites antes de sair: priorize campings, estacionamentos e locais autorizados.
Cozinhe no motorhome: faça compras maiores em supermercados e deixe restaurantes para experiências pontuais.
Controle o combustível: abasteça antes dos trechos de serra e evite chegar às regiões montanhosas com o tanque muito baixo.
Monitore o clima diariamente: no inverno, a previsão pode mudar seus planos rapidamente.
Evite dirigir à noite: além da visibilidade reduzida, a neblina pode aparecer de forma repentina.
Tenha roupas adequadas: segunda pele, fleece, jaqueta corta-vento, gorro, luvas e calçados impermeáveis fazem diferença.
Mantenha flexibilidade: um roteiro de inverno precisa ter espaço para alterações.
O que torna essa viagem especial
O grande diferencial desse roteiro não está apenas nos destinos, mas na transformação da paisagem ao longo dos 15 dias.
Você começa entre as luzes, cafés e construções charmosas da Serra Gaúcha. Depois encontra parreirais, vales e estradas rurais em Bento Gonçalves. Mais adiante, as cidades ficam menores, o frio aumenta e as montanhas dominam o horizonte.
Em Santa Catarina, a viagem ganha outro ritmo. São Joaquim, Urubici e Bom Jardim da Serra apresentam uma natureza mais selvagem, campos de altitude, cânions e estradas sinuosas.
E talvez seja justamente aí que esteja a maior beleza de viajar de motorhome no inverno: perceber que o destino não começa quando você estaciona.
Ele começa quando a estrada muda, quando a neblina aparece sobre a montanha, quando o primeiro frio da manhã invade o veículo e quando você percebe que, durante alguns dias, sua casa também pode estar sobre quatro rodas.
Depois de 15 dias, você não terá apenas visitado seis destinos. Terá atravessado diferentes paisagens, temperaturas, sabores e formas de viver a Serra.
E quando chegar a hora de seguir para casa, talvez aconteça aquela sensação inevitável de quem já está pensando na próxima estrada.
